é a penúltima linha da minha morada, enquanto aprendo matemática no MIT.
segunda-feira, março 19, 2007
(on)
Voltei a casa. De algum modo, pois sim, é casa. E quando cheguei tinha a rua cheia de neve e a sopa acabada de fazer no fogão, que mais se pode pedir?
quarta-feira, março 14, 2007
(off)
Estou em ferias no Canada. Fico ca ate domingo. Ate la, prevejo pouco ou nenhum movimento aqui no tasco. Ate porque nao tenho acentos, e escrever sem acentos aflige-me.
(ai, que descanso, hoje dormi onze horas)
(ai, que descanso, hoje dormi onze horas)
quarta-feira, março 07, 2007
exílio
Ainda sobre o post anterior, muitas vezes penso que este exílio não há-de ser assim tão diferente do que foi, há anos, o da minha mãe quando deixou a guarda para ir trabalhar e estudar na universidade em lisboa, e o do meu pai quando miúdo deixou a aldeia para ir para o liceu em castelo branco, ou quando trocou a beira baixa por lisboa para continuar a estudar.
Em alguns pontos, estou eu mais distante que eles estavam na altura. Em outros, estou bem mais perto.
Em alguns pontos, estou eu mais distante que eles estavam na altura. Em outros, estou bem mais perto.
terça-feira, março 06, 2007
distância
Uma pessoa embarca nisto de ir passar um número razoável de anos fora e sabe, mesmo que não saiba que sabe, que coisas vão acontecer nesses anos. Há-de nascer-nos gente (nascer-nos, assim mesmo, ainda que não a mim. Em Abril, por exemplo, vai nascer-me um primo, é isso que eu quero dizer), há-de morrer-nos gente, há-de casar-se gente e outras coisas assim importantes. É certo que se eu aí estivesse o mesmo aconteceria. Mas. O primo que me vai nascer, só lhe pego já bebé de meses. O outro priminho, a fazer-se gente, vejo-o de meio em meio ano, perguntam-lhe onde estou e responde "na amé-ica". O tio-(quase)-avô que me morreu há dois dias, não lhe fui ao funeral. Não chorei abraçada a quem chorou. Não olhei em volta, lá na terrinha, para os espaços onde coexisitmos, a deixar afundar a ideia de que já não estás aqui. Uma pessoa embarca nisto de ir passar um número razoável de anos fora e sabe, mesmo que não saiba que sabe, que um dia desses vai receber um telefonema a dizer "estou grávida" ou "já nasceu" ou "filhota, o titó faleceu" ou "vamos casar". E fica triste ou contente ou rebenta em lágrimas ou em gritos histéricos, por telefone. A milhares de quilómetros de distância.
segunda-feira, março 05, 2007
81
O titó foi meu quase avô.
Quando queríamos saber alguma coisa acerca de alguém lá da terra, ele sabia. Contava a história, acrescentava pormenores de personagens secundários, primos e primas, "sim, sim, esta era nossa parenta", é inevitável que esqueça a inflexão da voz quando ele dizia parenta, mas por agora consigo imaginar, a mão enrugada no ar, a dar ênfase à parentidade. Sentava-se no sofá e adormecia, cabeceava, ressonava até, mas depois de chamarmos duas ou três vezes dizia-nos que não, não estava a dormir, estava só a descansar os olhos. Nunca estava a dormir. É o hábito dos velhos, nunca dormir, só descansar os olhos. Às vezes ficava triste, cansado, fraco, respondia com "se lá chegar, se lá chegar" a tudo o que fizesse referência a um tempo futuro. Depois melhorava, lembro-me da voz em meio riso, a dizer "então, pois, é assim". A seguir ao almoço íamos todos juntos ao café, devagar, ao ritmo das muletas. Tremia-lhe a mão a segurar na chávena e gostava de chocolates. Todos os natais recebia chocolates. Eu também. E às refeições, às vezes eu contava-lhe as gotas de remédio, um comprimido destes e um dos outros, à frente do prato, estão aqui titó, estão aqui ao pé do copo, e ele dizia, eu sei, eu sei, eu vejo. E nós fingíamos que sim, que via, tal como fingíamos que só descansava os olhos, em vez de dormir sentado no sofá. Nos dias de sol sentava-se lá fora, ao sol. Como os gatos. A bóina, sempre a bóina. Lembro-me dele sempre velho, as muletas, a bóina, o cabelo muito branco, os óculos grossos e verdes. Ficava contente por beber um copo de geropiga a acompanhar as castanhas assadas à lareira. Não podia, não devia, como todos os velhos, mas fazia-lhe mais bem que mal, a alegria. Não casou, não teve filhos. Mas teve um sobrinho e uma sobrinha, e três sobrinhas netas. E um sobrinho bisneto, o G.. Vi-o um dia com os olhos molhados, o G. a tocar-lhe na mão, praticamente um bisneto, ali, uma mão de bebé na mão enrugada dele, e ele quase a chorar, de comovido. De vez em quando eu mandava-lhe postais de cá, lia-os a minha tia para ele. Gostava de beber chá à noite, como nós todos, deve ser de família, mas gostava das filhoses mais moles, achava as nossas muito duras. Sabia a resposta às adivinhas obscuras do meu tio, com palavras antigas. Levantava a mão enrugada, acenava com a mão enrugada e dizia "é sim, senhora, é isso mesmo". Hei-de esquecer-me do tom exacto, mas quero lembrar-me, a voz, a voz.
domingo, março 04, 2007
des-conjectura
Pois não, a coisa não estava certa, afinal é ainda mais complicado que antes, dá-se um passo à frente e dois atrás, ou se calhar é para os lados, mas isto é mesmo assim, e de tanto andar para a frente, para trás e para os lados, pode ser que acabe por não andar em círculos e vá ter a algum lado.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
tanques
Ontem ao jantar, a propósito de quantas vezes é que já apareceste no jornal, disse eu, apareci uma vez encostada a um tanque de guerra. Um tanque de guerra?! Sim, um dos que participou na nossa revolução, era um aniversário qualquer do 25 de abril e eu estava, criança, em pé à frente do tanque, o meu pai a tirar-me uma fotografia, e o fotógrafo a tirar uma fotografia ao pai a tirar uma fotografia à criança encostada ao tanque da revolução. Mas como é que vocês arranjaram tanques para a revolução? Ele sem perceber de onde vinham os tanques e eu sem perceber a pergunta, como, como assim? Eram os tanques do exército, havia tanques, pois então. E ele, ah, então foram os militares que fizeram a revolução, e eu sim, foram os militares, alguns militares, contra o governo, os militares estavam descontentes, havia guerra em áfrica, guerra colonial, triste, triste. Mas fizeram a revolução e depois não mantiveram o poder, nunca foi esse o plano nem o objectivo, foi a única revolução assim no mundo.
Diz-me ele, sabes, esta guerra no iraque é a primeira guerra americana em que os militares estão contra a guerra, fizeram uma sondagem entre os militares, e eles estão contra, nem na guerra do vietname foi assim. E pela segunda vez, um americano diz-me, e nós, porque é que nós não fazemos uma revolução assim também?
Diz-me ele, sabes, esta guerra no iraque é a primeira guerra americana em que os militares estão contra a guerra, fizeram uma sondagem entre os militares, e eles estão contra, nem na guerra do vietname foi assim. E pela segunda vez, um americano diz-me, e nós, porque é que nós não fazemos uma revolução assim também?
conjectura
Andávamos, o orientador e eu, com uma conjectura na cabeça, coisa pouco complicada, mas que tinha que ser compreendida e provada. Ontem finalmente sentei-me, e numa página estava a coisa provada, e é muito mais simples do que esperávamos. Escrevi-lhe um email a dar as boas notícias, quando é que nos vemos para eu dizer com foi? Esta manhã recebi um email dele, é já hoje, a que horas podes cá estar?
domingo, fevereiro 25, 2007
on ice
Hoje patinei.

Tenho os pés grandes, largos, calço quase sempre o 39, coisa triste, quando toda a gente sabe que a cinderela tinha os pés pequenos e às irmãs malvadas calharam os pés grandes. Por isso, ou porque não uso saltos, sempre patinei com patins de hóquei, eufemismo para patins de gajo. Hoje pedi os outros, os de menina-mocinha-bailarina-princesa. Não fiz piruetas, mas patinei de saltos altos.
Tenho os pés grandes, largos, calço quase sempre o 39, coisa triste, quando toda a gente sabe que a cinderela tinha os pés pequenos e às irmãs malvadas calharam os pés grandes. Por isso, ou porque não uso saltos, sempre patinei com patins de hóquei, eufemismo para patins de gajo. Hoje pedi os outros, os de menina-mocinha-bailarina-princesa. Não fiz piruetas, mas patinei de saltos altos.
sábado, fevereiro 24, 2007
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