é a penúltima linha da minha morada, enquanto aprendo matemática no MIT.
segunda-feira, março 19, 2007
arroz de lingueirão
Há as saudades óbvias. Standard. Toda a gente, mais coisa menos coisa, tem saudades da família e dos amigos, e é tão constantemente que quase não se notam. E depois há as menos óbvias. Saudades do arroz de lingueirão, do conceito de bolos regionais e fruta da época e passeio dos tristes, de lugares marcados no cinema, de expressões como "ó caramelo" e "pitosga", de molas da roupa, do cheiro a pinheiro e aí por diante.
xutos
As saudades, senhores, dão-nos para cada coisa... Deu-me assim umas saudades de pular em concertos, de música aos berros no carro, de gente com guitarras no verão, e por isso escrevi "xutos e pontapés" no youtube. Pois, senhores, aquilo que eu tinha mesmo que registar, digno de nota, gargalhada instantânea - mas quem é que se lembrou disto?! - olha tão giro as guitarras em plasticina! - só faltam os típicos lencinhos à volta do pulso - é, cá está pois então, isto.
passa tempo, tempo passa
Está a nevar lá fora, mas daqui a uns dias a máxima é de 16º. Tenho saudades de t-shirts, de meias sem ser pelo joelho, de casaco que não o de inverno.
Já vamos em meio março, para a semana não há aulas e vou passar o fim-de-semana à cidade. É tempo de tratar dos impostos, e tempo de esperar pelo último degelo do ano. Daqui a três semanas e meia chegam os meus pais, e depois disso é mais um mês até acabarem as aulas e eu voltar a portugal.
Já vamos em meio março, para a semana não há aulas e vou passar o fim-de-semana à cidade. É tempo de tratar dos impostos, e tempo de esperar pelo último degelo do ano. Daqui a três semanas e meia chegam os meus pais, e depois disso é mais um mês até acabarem as aulas e eu voltar a portugal.
(on)
Voltei a casa. De algum modo, pois sim, é casa. E quando cheguei tinha a rua cheia de neve e a sopa acabada de fazer no fogão, que mais se pode pedir?
quarta-feira, março 14, 2007
(off)
Estou em ferias no Canada. Fico ca ate domingo. Ate la, prevejo pouco ou nenhum movimento aqui no tasco. Ate porque nao tenho acentos, e escrever sem acentos aflige-me.
(ai, que descanso, hoje dormi onze horas)
(ai, que descanso, hoje dormi onze horas)
quarta-feira, março 07, 2007
exílio
Ainda sobre o post anterior, muitas vezes penso que este exílio não há-de ser assim tão diferente do que foi, há anos, o da minha mãe quando deixou a guarda para ir trabalhar e estudar na universidade em lisboa, e o do meu pai quando miúdo deixou a aldeia para ir para o liceu em castelo branco, ou quando trocou a beira baixa por lisboa para continuar a estudar.
Em alguns pontos, estou eu mais distante que eles estavam na altura. Em outros, estou bem mais perto.
Em alguns pontos, estou eu mais distante que eles estavam na altura. Em outros, estou bem mais perto.
terça-feira, março 06, 2007
distância
Uma pessoa embarca nisto de ir passar um número razoável de anos fora e sabe, mesmo que não saiba que sabe, que coisas vão acontecer nesses anos. Há-de nascer-nos gente (nascer-nos, assim mesmo, ainda que não a mim. Em Abril, por exemplo, vai nascer-me um primo, é isso que eu quero dizer), há-de morrer-nos gente, há-de casar-se gente e outras coisas assim importantes. É certo que se eu aí estivesse o mesmo aconteceria. Mas. O primo que me vai nascer, só lhe pego já bebé de meses. O outro priminho, a fazer-se gente, vejo-o de meio em meio ano, perguntam-lhe onde estou e responde "na amé-ica". O tio-(quase)-avô que me morreu há dois dias, não lhe fui ao funeral. Não chorei abraçada a quem chorou. Não olhei em volta, lá na terrinha, para os espaços onde coexisitmos, a deixar afundar a ideia de que já não estás aqui. Uma pessoa embarca nisto de ir passar um número razoável de anos fora e sabe, mesmo que não saiba que sabe, que um dia desses vai receber um telefonema a dizer "estou grávida" ou "já nasceu" ou "filhota, o titó faleceu" ou "vamos casar". E fica triste ou contente ou rebenta em lágrimas ou em gritos histéricos, por telefone. A milhares de quilómetros de distância.
segunda-feira, março 05, 2007
81

O titó foi meu quase avô.
Quando queríamos saber alguma coisa acerca de alguém lá da terra, ele sabia. Contava a história, acrescentava pormenores de personagens secundários, primos e primas, "sim, sim, esta era nossa parenta", é inevitável que esqueça a inflexão da voz quando ele dizia parenta, mas por agora consigo imaginar, a mão enrugada no ar, a dar ênfase à parentidade. Sentava-se no sofá e adormecia, cabeceava, ressonava até, mas depois de chamarmos duas ou três vezes dizia-nos que não, não estava a dormir, estava só a descansar os olhos. Nunca estava a dormir. É o hábito dos velhos, nunca dormir, só descansar os olhos. Às vezes ficava triste, cansado, fraco, respondia com "se lá chegar, se lá chegar" a tudo o que fizesse referência a um tempo futuro. Depois melhorava, lembro-me da voz em meio riso, a dizer "então, pois, é assim". A seguir ao almoço íamos todos juntos ao café, devagar, ao ritmo das muletas. Tremia-lhe a mão a segurar na chávena e gostava de chocolates. Todos os natais recebia chocolates. Eu também. E às refeições, às vezes eu contava-lhe as gotas de remédio, um comprimido destes e um dos outros, à frente do prato, estão aqui titó, estão aqui ao pé do copo, e ele dizia, eu sei, eu sei, eu vejo. E nós fingíamos que sim, que via, tal como fingíamos que só descansava os olhos, em vez de dormir sentado no sofá. Nos dias de sol sentava-se lá fora, ao sol. Como os gatos. A bóina, sempre a bóina. Lembro-me dele sempre velho, as muletas, a bóina, o cabelo muito branco, os óculos grossos e verdes. Ficava contente por beber um copo de geropiga a acompanhar as castanhas assadas à lareira. Não podia, não devia, como todos os velhos, mas fazia-lhe mais bem que mal, a alegria. Não casou, não teve filhos. Mas teve um sobrinho e uma sobrinha, e três sobrinhas netas. E um sobrinho bisneto, o G.. Vi-o um dia com os olhos molhados, o G. a tocar-lhe na mão, praticamente um bisneto, ali, uma mão de bebé na mão enrugada dele, e ele quase a chorar, de comovido. De vez em quando eu mandava-lhe postais de cá, lia-os a minha tia para ele. Gostava de beber chá à noite, como nós todos, deve ser de família, mas gostava das filhoses mais moles, achava as nossas muito duras. Sabia a resposta às adivinhas obscuras do meu tio, com palavras antigas. Levantava a mão enrugada, acenava com a mão enrugada e dizia "é sim, senhora, é isso mesmo". Hei-de esquecer-me do tom exacto, mas quero lembrar-me, a voz, a voz.
domingo, março 04, 2007
des-conjectura
Pois não, a coisa não estava certa, afinal é ainda mais complicado que antes, dá-se um passo à frente e dois atrás, ou se calhar é para os lados, mas isto é mesmo assim, e de tanto andar para a frente, para trás e para os lados, pode ser que acabe por não andar em círculos e vá ter a algum lado.
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